Lesões do lábio superior (lesões SLAP)

O que é a lesão do lábio superior (SLAP)?

Para entender a lesão do lábio superior é necessário uma breve orientação sobre a anatomia do ombro e do bíceps. O lábio é uma fibrocartilagem que é fixo na articulação em 360°, como se fosse a borda de um prato. Ele tem diversas funções, mas a principal é aumentar a estabilidade do ombro, evitando que ele se desloque com os movimentos. Clique aqui para saber mais sobre a anatomia do ombro. O bíceps é um músculo do braço que se origina de 2 locais diferentes e se insire no cotovelo. Um desses locais de origem está dentro da articulação do ombro, mais precisamente na parte de cima da glenóide (nome dado a parte da escápula da articulação). O bíceps não se origina diretamente do osso, mas da parte mais superior do lábio (como se fosse ao meio dia de um relógio), que está "grudado" ao osso. O SLAP ocorre quando há uma lesão do lábio nessa sua porção superior, justamente onde há a origem do bíceps. O SLAP pode ser causado por um trauma no ombro, nas luxações do ombro ou por movimentos repetitivos semelhantes ao arremesso, sendo uma das lesões da síndrome do ombro do arremessador

SLAP 01.jpg
Lesão do lábio superior

Lesão do lábio superior

Qual é a consequência da do SLAP?

Durante movimentos de rotação externa do braço (posição de preparo do arremesso), o tendão da cabeça longa do bíceps exerce um movimento de rotação junto com o ombro. No ombro normal isso não causa repercussão. Mas no ombro com SLAP, essa rotação pode "descascar" o lábio e gerar dor. Essa dor inicialmente ocorre na posição de preparo do arremesso e pode piorar progressivamente por causa de uma inflamação do bíceps (tendinopatia do bíceps), gerando dor mesmo ao repouso.

Mecanismo de pell-back da lesão de SLAP

Como é feito o diagnóstico da lesão do lábio superior (SLAP)?

O diagnóstico do SLAP não é simples. Existem diversos testes de exame físico que podem sugerir a lesão, mas em geral não são específicos para o SLAP (ou seja, podem ser positivos em outras doenças como as lesões dos tendões do manguito rotador). A ressonância magnética é o principal exame para o diagnóstico e, eventualmente, pode ser necessário o uso de contraste intra-articular (injeção de contraste dentro da articulação) para melhorar a sensibilidade do exame.

Ressonância magnética

Quais os tipos de lesão do lábio superior (SLAP)?

A lesão SLAP pode ser isolada ou associada a outros problemas. A associação mais comum é com a luxação do ombro, que também gera uma lesão do lábio, mas na sua porção mais inferior (das 3 às 6 horas de um relógio). O SLAP também pode fazer parte do ombro do arremessador, que apresenta outras lesões e características. Lesões dos tendões do manguito rotador também pode apresentar estar associadas. Existem diferentes tipos de lesão de SLAP. As lesões mais comuns e menos graves são as degenerativas, ou seja, existe apenas uma alteração leve no lábio superior. Essas são as lesões que normalmente estão associadas às lesões do manguito rotador ou ocorrem nos pacientes sedentários acima de 50 anos e não precisam de tratamento, pois não são fonte de dor. As lesões com potencial problema são aquelas em que o lábio se solta do osso e naquelas em que o tendão do bíceps está lesado. Essas lesões podem ser dolorosas e dificultar algumas atividades, principalmente aquelas com o braço para cima e para trás (posição do arremesso).

Tipos de lesão do lábio superior (SLAP)

Tipos de lesão do lábio superior (SLAP)

Qual é o tratamento da lesão do lábio superior (SLAP)?

Nem todas as lesões de SLAP precisam de tratamento. Muitos pacientes tem essa lesão e não tem sintomas ou limitações. Nos indivíduos que praticam esportes e principalmente os arremessadores essa lesão pode gerar limitação funcional, com dimimuição do rendimento esportivo, por perda de força no arremesso ou por dor. Nesses pacientes é necessário um tratamento. A reabilitação é o tratamento de escolha e deve ser feito em todos os casos antes de se discutir sobre a cirurgia. O objetivo da reabilitação é corrigir contraturas do ombro, melhorar a força dos tendões e auxiliar na diminuição de eventuais processos inflamatórios. Além disso, a correção do gesto esportivo é essencial para evitar que a dor ocorra novamente. A reabilitação não corrige a lesão do lábio, que não cicatriza sozinho, mas pode ser suficiente para aliviar a dor na maioria dos casos.

Como é o tratamento cirúrgico da lesão do lábio superior (SLAP)?

Na minoria dos casos de lesão de SLAP que não apresentam resposta com a reabilitação ou nos casos de dor recorrente ou na perda de desempenho esportivo, o tratamento cirúrgico pode ser indicado. A presença de uma lesão SLAP isolada no paciente com pouca dor ou nos pacientes em que a dor é proveniente dos outros tendões, a cirurgia não é recomendada. Nos casos de luxação do ombro, o SLAP pode ser corrigido na mesma cirurgia de correção da luxação Existem 2 opções principais de cirurgia: o reparo da lesão ou a tenodese do bíceps. Ambas podem ser feitas por artroscopia (vídeo), de modo minimamente invasivo. O reparo da lesão de SLAP é realizado atraves da sutura do lábio no osso, feita através do uso de âncoras. Os resultados são satisfatórios, mas o tempo de recuperação é prolongado e há um risco de rigidez ou limitação do movimento de rotação externa do ombro. A tenodese do bíceps é outra opção. Nesse procedimento, o tendão do bíceps é cortado de seu local original (lábio superior) e é reinserido em um túnel no úmero (através de âncoras ou parafusos). O risco de rigidez é menor e a chance de melhora da dor é maior que nos casos de reparo do SLAP, mas existe um pequeno risco de perda de potência no arremesso para os atletas de alta performance.

Opções de tratamento cirúrgico para as lesões do lábio superior (SLAP)

Opções de tratamento cirúrgico para as lesões do lábio superior (SLAP)

 

Quais as principais complicações da lesão do lábio superior (SLAP)?

A maior complicação dessas lesões é a dor e diminuição do rendimento nos esportes de arremesso. O desenvolvimento de um cisto no ombro pode ocorrer nessas lesões. São cistos benignos, formados através de um mecanismo de válvula, em que o líquido articular "vaza" do ombro e não retorna, acumulando-se em uma área próxima, mas fora, da articulação. Esses cistos quando pequenos não geram complicações, mas se grandes, podem comprimir um nervo que passa próximo da articulação, chamado de nervo supraescapular. Nos casos de compressão do nervo, pode haver perda de força para rodar o ombro externamente e uma cirurgia pode ser necessária.

Cisto paralabial (ou paralabral) causado pela lesão de SLAP

Cisto paralabial (ou paralabral) causado pela lesão de SLAP

Anatomia do Ombro - Ligamentos, lábio e estabilidade

O ombro é composto por 3 ossos principais: escápula, úmero e clavícula. Uma parte da escápula, chamada de glenóide, compõe a região da articulação com presença de cartilagem e em contato direto com a cabeça do úmero. A glenóide tem o formato de uma pêra cortada, sendo pouco côncava. A cabeça do úmero apresenta uma circunferência maior do que a glenóide, gerando uma instabilidade nessa articulação. O contato entre a glenóide e o úmero pode ser exemplificado como se uma bola estivesse sendo mantida em contato com um prato raso na posição vertical.

Anatomia do ombro e estabilidade

A vantagem dessa característica de instabilidade é permitir uma grande amplitude de movimento e flexibilidade do ombro - fator essencial para as atividades físicas e esportivas. Para manter esse equilíbrio em aprisionar a “bola” apenas com um “prato raso”, o organismo desenvolveu diversos fatores de estabilização.

Dentre esses fatores, os principais são: lábio da glenóide, cápsula articular e tendões do manguito rotador. O lábio é um tecido de consistência fibroelástica que envolve toda a borda da glenóide e serve para aumentar sua área total, transformando “o prato de sobremesa em um prato fundo”.
A cápsula articular é um tecido que reveste a cabeça do úmero em um de seus lados, conectando-se com a glenóide no outro lado - mais especificamente, inserindo-se no lábio da glenóide. A parede dessa cápsula é espessa em algumas regiões, onde estão os ligamentos glenoumerais. A cápsula afrouxa durante os movimentos mais leves do ombro. Quando o ombro atinge os limites de movimento – em posição de arremesso, por exemplo -, a cápsula é esticada, impedindo maior movimentação e, consequentemente, evitando a luxação.
Os tendões do manguito rotador envolvem toda a cabeça do úmero. Durante a contração muscular do ombro, fixam a cabeça do úmero contra a glenóide, o que acarreta maior estabilidade ao movimento.

Ombro do arremessador

O que é o ombro do arremessador?

O ombro do arremessador representa um conjunto de alterações que ocorrem nos ombros de algumas pessoas que realizam esportes de arremesso por período prolongado . Essas alterações podem ocorrer em qualquer idade, mas são mais comuns nas pessoas que fizeram esses esportes por período prolongado (em geral desde a adolescência) Dentre os esportes de arremesso, os que mais geram esse tipo de lesão são: tênis, vôlei, handball e baseball. Nesses esportes, o movimento do ombro no arremesso é muito amplo, com o braço saindo por trás da cabeça, passando pelo arremesso da bola e finalizando com o braço próximo ao corpo. O ombro do arremessador é caracterizado pela contratura da cápsula posterior, lesões do lábio superior (SLAP) e discinesia de escápula.

Ombro do arremessador
 

Quais são as alterações e como elas ocorrem?

A primeira alteração que ocorre nos arremessadores é a limitação de um movimento específico do ombro, chamado de rotação interna. Nessa fase, consideramos que o ombro está "em risco", pois pode ser iniciada toda a cascata de alterações do funcionamento do ombro durante o arremesso. Muitos arremessadores podem ter essa restrição de movimento e não apresentarem nenhum sintoma, mas consideramos que devam ser tratados para evitar o início da cascata.

Após longos períodos com essa restrição de movimento, o ombro passa a funcionar de modo alterado e sua rotação não ocorre mais no centro da articulação. Com o centro de rotação desviado para cima e para trás, ocorre uma torção excessiva de um tendão que está inserido dentro da articulação, chamado de "cabeça longa do bíceps". Se essa torção ocorrer por muito tempo ou de modo muito intenso, esse tendão pode começar sofrer e se soltar do osso, gerando uma lesão chamada SLAP.

E, a partir desse momento, o indivíduo pode passar a sentir dor durante o movimento do arremesso, principalmente na fase de armação (braço atrás da cabeça), que pode ser inicialmente leve e progredir para uma sensação de braço morto. Outras lesões podem ocorrer, como uma frouxidão dos ligamentos do ombro e lesões dos tendões do manguito rotador (tendão do músculo supraespinal). Com essas lesões, a limitação do arremessador passa a ser importante, dificultando ou impossibilitando qualquer tipo de arremesso. O movimento da escápula também pode ficar alterado, piorando a dor no ombro e gerando dor na parte de trás do ombro, próximo à coluna vertebral. É importante destacar que a doença chamada "Ombro do Arremessador" não é a única causa das lesões nos pacientes que arremessam e seu diagnóstico é complexo. Outras doenças também podem causar dor durante o arremesso, como a síndrome do impacto, bursite, tendinite, lesão dos tendões do manguito rotador e a subluxação do ombro (instabilidade oculta).

Alteração inicial do ombro do arremessador: limitação da rotação interna.

Alteração inicial do ombro do arremessador: limitação da rotação interna.

 
Lesão do lábio superior (SLAP)

Lesão do lábio superior (SLAP)

Como evitar?

O alongamento frequente do ombro é importante para os praticantes de esportes de arremesso e realizar o alongamento de rotação interna é o melhor método para prevenir essa doença. Nos pacientes com o ombro em risco, esse alongamento é essencial e deve ser feito várias vezes ao dia. O fortalecimento dos músculos rotadores do ombro também é importante, principalmente dos rotadores externos, que podem "amortecer" a fase final do arremesso e diminuir a chance do desenvovimento do "ombro do arremessador".

Qual é o tratamento do ombro do arremessador?

Mesmo após o desenvolvimento das lesões, o tratamento inicial deve ser com um programa de reabilitação, que consiste no reequilíbrio do alongamento do ombro, fortalecimento dos músculos do manguito e dos músculos da escápula. Mesmo que algumas lesões não cicatrizem, como a lesão de SLAP ou do manguito, os sintomas podem diminuir e permitir o retorno ao esporte. Para o retorno ao esporte, deve ser realizada a correção do gesto esportivo. Deve-se evitar o movimento extremo de rotação na armação do arremesso, utilizando mais a rotação do tronco do que do ombro.

Alongamento da cápsula posterior - "Sleep strech"

Alongamento da cápsula posterior - "Sleep strech"

Fortalecimento do manguito rotador - rotadores externos

Fortalecimento do manguito rotador - rotadores externos

 

Qual é o tratamento cirúrgico para o ombro do arremessador?

Nos casos com lesões mais crônicas e graves, pode ser necessário o tratamento cirúrgico. Vale lembrar que, mesmo nesses casos, a reabilitação deve ser feita inicialmente, pois pode melhorar os sintomas ou mesmo preparar o ombro para uma recuperação mais rápida após a cirurgia. A cirurgia pode ser feita por artroscopia e consiste na correção das lesões dos tendões e ligamentos e varia de acordo com cada. O reparo da lesão de SLAP é o procedimento mais comum. A liberação das contraturas e desequilíbrios da parte de trás do ombro pode ser feita nos casos em que os alongamentos não foram suficientes. Após a cirurgia, a reabilitação é feita por um tempo de 3 a 6 meses e segue os mesmos principios descritos previamente.

< voltar